terça-feira, 4 de novembro de 2025

CRISTAIS

 


CRISTAIS

Resvalo nos cristais da noite que sepulta
o riso da manhã e os lábaros do dia.
Num átimo febril a minha dor espia
a aragem do porvir e a sua fé oculta.

Quisera interromper o ciclo que faculta
à aurora esvanecer na tarde de asa fria.
O tempo, em seu furor, a tudo silencia,
e jaz na imensidão a azáfama insepulta...

Resvalo nos cristais, nas dobras temporais,
por entre lua e sol, colheita, seca e fome,
na imensa exatidão que o tempo dilacera.

Enquanto resta luz, resvalo nos cristais.
No jogo especular que aos poucos me consome,
eu sou argila e pó, semente, morte, espera...

Geisa Alves 

Cadeira n.23  - Artur Azevedo

NO TEMPO DAS SERENATAS

 


NO TEMPO DAS SERENATAS

Lembrando fico, às vezes, do passado,
de coisas que se não cogitam mais,
de coisas boas, que esse tempo, alado,
levou de mim e nem deixou sinais.

Isso é saudade? – Sim, não é pecado,
são lembranças que saltam dos anais
de minha história, quando fui moldado,
memórias de meus anos joviais.

Ouviam-se cantar canções tão belas!
Violões choravam de paixão nas ruas,
e moças suspiravam, todas elas.

A lua muito linda, cor de prata,
molhava de sereno as cordas nuas
de um violão choroso em serenata.

Raymundo Salles 
Cadeira 18 - Ineifran Varão

ANJO E FAUNO


 

AINDA TENHO TEMPO


AINDA TENHO TEMPO

Ainda tenho tempo, nunca esfria 
o viço de transpor o curso estreito;
as horas não irão ceifar meu dia,
a todo instante a escuridão rejeito.

Ainda tenho tempo, não aceito
qualquer olhar, repleto de apatia,
a sobrepor somente o meu defeito,
pois abandona o bem e o mal amplia.

Mesmo de mãos atadas, me refaço,
consigo achar recurso no fracasso 
 e esmago com meu pé qualquer serpente...

Cada segundo enlaço intensamente,
ainda tenho tempo, vou vencer...
sinto a vitória dentro do meu ser!

Janete Sales 

Cadeira nº 5  - Augusto dos Anjos

REFLEXÕES SOBRE O TEMPO

 



REFLEXÕES SOBRE O TEMPO

O tempo é rio que cumpre o seu afã, destino,
reflui e flui, e vence o vale mais estreito,
rasga o caminho e segue adiante, sempre, a eito,
nutrindo a terra-mãe, o dom maior, divino.

Assim prossegue, além, viajante peregrino,
nos pantanais se perde e, então se vai, refeito,
até morrer no mar, o derradeiro leito,
onde se esvai, enfim, no beijo tão salino.

Mas não se finda nunca o manancial, por certo, 
há fontes a montante e oásis no deserto,
eterno vir a ser, que a tudo nos convida.

E tudo se refaz nas águas da lembrança,
o importante é amar, enquanto o tempo avança,
ser rio e mar... e ser, também, nutriz da vida.

Edir Pina de Barros
Cadeira n. 6 – Cecília Meireles

PARADOXO DO TEMPO

 


PARADOXO DO TEMPO

Do tempo muitos dizem isso e aquilo:
uns o julgam castigo, outros, promessa;
mas como, enfim, podemos defini-lo?
Conceito abstrato ou algo que se meça?

O tempo é lento para quem se apressa,
mas ai de quem se excede num cochilo!
Constata que o ponteiro andou depressa…
é basilar gastá-lo com estilo.

Instrumental criativo ou deletério?
Um rio que flui cercado de mistério,
constante feito o vento, o sol, a lua…

companheiro e verdugo na jornada.
Dizemos que ele passa… passa nada!
A gente expira, o tempo continua…

José Erato  

Cadeira 25  - Vicente de Carvalho

PROMESSA IMANENTE

 


PROMESSA IMANENTE

O tempo pertinaz dos passos da formiga
na tarefa ancestral da pequena labuta;
o tempo da minhoca em faina sem fadiga
a compostar no solo os restos que desfruta;

o tempo de uma lesma espalmando a barriga
na aspereza da rocha, arrastando a voluta;
e o tempo de uma rocha exposta ao que a mitiga,
milênios ruminando a tal matéria bruta;
    
o tempo do planeta ao redor do regente,
orbitando a espiral da ciranda na dança,
o tempo em que se esfria o sol tão solitário;

o tempo de um piscar e, repentinamente,
a primavera murcha e, do pólen, se lança
a promessa imanente em qualquer calendário.

Marcelo Diniz
Acadêmico Honorário