CRISTAIS
Resvalo nos cristais da noite que sepulta
o riso da manhã e os lábaros do dia.
Num átimo febril a minha dor espia
a aragem do porvir e a sua fé oculta.
Quisera interromper o ciclo que faculta
à aurora esvanecer na tarde de asa fria.
O tempo, em seu furor, a tudo silencia,
e jaz na imensidão a azáfama insepulta...
Resvalo nos cristais, nas dobras temporais,
por entre lua e sol, colheita, seca e fome,
na imensa exatidão que o tempo dilacera.
Enquanto resta luz, resvalo nos cristais.
No jogo especular que aos poucos me consome,
eu sou argila e pó, semente, morte, espera...
Geisa Alves
Cadeira n.23 - Artur Azevedo






