Tema livre.
Rimas ricas.
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O amor nos pede sempre resistência,
ainda que ele chegue sem demora,
porque se o tempo corre, já devora
o que se mostra em modo de latência.
Sofrer, talvez, amplie sua essência,
qual minuto a zelar, cortês, da hora:
aquela que nem chega e vai embora
em busca de outros lapsos de vivência.
A cada passo, impõe-se novo alento,
na vida de quem sabe ser amante
e tem por meta, o riso e a alegria.
Buscar o elã na vida eu sempre tento,
pois sei que o tempo finda a todo instante
que vê fugir o sonho à luz do dia.
Basilina Pereira
Cadeira 33- Abrasso
Patrono: Jorge de Lima
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O PRECONCEITO
Muitas vezes, perdemos a esperança
quando o chicote estala em nossas costas
e todas as feridas são expostas...
A dor do preconceito nos alcança.
A carne retalhada em finas postas
há muito tempo aguarda por mudança,
porém o preconceito não descansa
e persiste nas regras ora impostas.
Muitos olhos jamais enxergarão:
partilha o mesmo sol e o mesmo chão
a humanidade tão contraditória.
A própria vida aos poucos nos traduz:
o peso que possui a nossa cruz
é o mesmo que possui a nossa glória!
Luciano Dídimo - Cadeira nº 2
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ITALIANA
Italiana, bravíssima Italiana!
Guerreira nas batalhas foste outrora,
com cetro em luz reinaste soberana,
afável como os risos de uma aurora!
Oásis foste, e a flor que nunca engana,
quando o perfume exala mundo afora,
memórias há do quanto foste humana,
com teu diário aberto o peito chora.
De lágrimas teceste um manto em breu,
quando um purpúreo mundo escureceu,
o pranto prolongou-se, foi demais.
Porém calou-se a cruz, rasgaste o rio,
restando um céu cinzento e assaz vazio,
voltaste ao lar a unir-se aos ancestrais!
Marlene Reis Cadeira 26
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RODA-VIVA
Enquanto gira a roda-viva, eu danço
no giro louco e quase me desfaço.
Busco alinhar no tempo o meu compasso,
e no tropeço o arrimo do balanço.
No avanço do ponteiro, o corpo lasso
entrega-se à exaustão, ao seu descanso.
Recito um mantra e a sua essência alcanço:
o novo dia traz um terno abraço.
No vórtice das horas me aprofundo,
mergulho em seu estágio mais profundo
e fico a meditar, em paz, sem pressa.
A vida gira, e eu giro junto dela,
pois quem aceita a dança mais singela,
vive na roda o sonho que não cessa.
Aila Brito - cadeira 32
Patrona - Auta de Sousa
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PETRARCA ABRAÇA A ABRASSO
Ao vate cuja escrita a musa dá um toque
que alinha o verso à estrofe em metro e bela rima,
por certo um brilho a mais virá, do espaço acima,
juntar em tempo ao texto o verso ao qual retoque.
Petrarca, em tese, armou a trama em farto estoque
de rimas ricas, metro e som no belo clima
da Itália culta e palco em festa de obra-prima
que ao mestre e sábio vate um verso a mais provoque.
Medida Nova atrai o velho mundo em crise,
e o mundo adota o verso e dele faz reprise:
Camões e Sá, Bilac, Augusto... e mais estrelas...
Até que nasce a ABRASSO em tempos pós-modernos
e a Trupe esculpe o verso e o veste em belos ternos,
lições que até Petrarca afirma: “Vamos lê-las...”
Carlos Alberto Cavalcanti – cadeira 27
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ABANDONO
Há um sussurro no ar e eleva-se a manhã
sobre os imensos ais dos pêndulos do outono.
Acordam, sob a luz, as horas que fraciono
entre a saudade atroz e a fantasia vã.
Há um sussurro no ar e o sol amplia o trono
sobre a gramínea e a flor, a rosa temporã.
Mas sobre o meu pesar, a aurora oculta o elã,
o inverno habita em mim... nos rastros de abandono.
Eu procurei o amor na solidão das brumas,
um beijo desejei por toda a noite infinda,
morri no sonho meu... imaginado e louco...
No entanto, tempo, à dor da ausência me acostumas,
o mal que me corrói também me acorda, ainda,
e eu vivo a vida, assim, morrendo pouco a pouco...
Geisa Alves Cadeira n.23
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FÊNIX
Sou a daninha erva que se enflora
nas gretas dos rochedos, do cimento,
pois ruminei a dor, em desalento,
bebi o próprio pranto vida afora.
Tornei-me, assim, aquela que se arvora
em ressurgir nas frinchas do tormento...
Nos vãos das rochas, guardo e sedimento
as forças que detenho em mim agora.
Eu me encontrei, depois de tanta luta,
de mágoa em mágoa, de uma vida bruta,
a carregar no peito apenas pedra.
Se alguém me pisa, humilha ou mesmo esmaga,
renasço bem mais forte do que a praga
que surge e viça onde o nada medra.
Edir Pina de Barros Cadeira n. 6
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MALIGNA DEPRESSÃO
À MARIA HELENA minha irmã.
Por que te afliges tanto, minha irmã,
se não trazes, no corpo, um mal temido,
com teu viver ficando sem sentido
sem que possas sentir-te alegre e sã?
Auguro sempre o bem-estar provido,
para o gozo completo nesse afã,
por teres proteção da fé cristã
que por graça suprema tenhas tido.
Talvez por uma dor latente, abstrata,
(perdoe-me como penso sem visão)
mas que persiste, teima e te maltrata.
Depende só de ti, irmã querida,
sair do vil desgosto a depressão,
a causa que corrói a tua vida.
José Walter Pires
Cadeira 34, patrono Sá de Miranda
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PREFIRO SER ASSIM...
Não quero pouco, quero a eternidade,
dirão que sou um louco e até aceito,
porque talvez eu seja, na verdade,
guardo o futuro dentro do meu peito.
Em meu pensar persiste a liberdade,
serei eterno, mesmo com defeito,
essa certeza absurda não se evade,
travo a extinção, qualquer final rejeito.
Prefiro ser assim, jamais sensato,
e, sendo dessa forma, até constato
que ainda ostento o ânimo de outrora.
Prefiro ser assim, jamais restrito,
pavor eu nunca tive do infinito,
e essa reação restauro a toda hora...
Janete Sales - Cadeira nº 5
Patrono - Augusto dos Anjos
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PESCADOR DE VERSOS
Percebo em vosso olhar deslumbramento
ao lerdes estes versos singulares,
em que exaltei a sedução dos mares
e o fausto deste cosmos opulento.
É o mar, e não o verso, o luculento
espaço de fascínios invulgares
que tento capturar em meus cantares,
ainda que me exceda o pensamento.
O mar que vem da gênese do mundo,
e nosso olhar jamais decifrará,
de modo pleno, o código profundo.
O poema nada tem de insigne, crede!
Os versos estiveram sempre lá,
só esperando alguém lançar a rede.
J. Erato Cadeira 25
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SURGES
Surges, e a minha vida silencia
como se levitasse em um momento...
Não importa o cenário barulhento,
apenas esta simples nostalgia.
Tudo lembra secreta melodia:
as nuvens vagas, seu percurso lento,
as folhas arrastadas pelo vento,
o sol que minha tez acaricia…
Surges em meio a tudo que define
o meu viver metódico, incessante;
numa esquina, um reflexo de vitrine,
uma travessa, um trecho ou um bazar;
feito alguém que surgiu por um instante
e ao meu lado se pôs a caminhar...
Paulo Maurício G Silva Cadeira 03
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A CASA
Retorno à antiga casa abandonada
que outrora deu guarida à minha infância.
Pisei no velho chão, com relutância,
as pedras desbotadas da calçada.
Lá dentro, murmurava a ressonância
dos ecos de uma efêmera jornada,
ciciando, em um rumor de voz velada,
os sonhos sepultados na distância.
Um frêmito fugaz de calafrio
apunhalou-me então ‐‐ um arrepio ‐‐
lançando-me às memórias do passado.
Junto aos fantasmas, quando estava ali,
na casa agonizante, eu entendi:
‐‐ ali jazia o tempo aprisionado!
Paulo Tórtora - cadeira n⁰ 20
Patrono Fagundes Varella
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LÁGRIMAS DA LUA
A lua, debruçada na janela,
ao me flagrar tão triste e soluçando,
pergunta em voz materna: — Desde quando
sumiu a sua paz por causa dela?
Por me fingir de surdo, a lua apela,
impõe a autoridade e diz bradando:
— Não quero que se integre àquele bando
que faz do amor as grades de uma cela.
Então eu bebo cálices de vinho,
gota por gota, bem devagarinho
até que, na garrafa, reste o nada.
Ao ver que à minha dor não acho a cura,
compadecida, a lua em prantos jura
chorar comigo sempre sempre amargurada.
Maurício Cavalheiro Cadeira nº 19
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MINHA SINA
Quando me faltam versos, eu expiro,
desço ao inferno lúgubre do nada,
inerte, ofego um último suspiro
no abismo da agonia desvairada.
Quando versejo em branco no papiro
(lauda de inspiração desencontrada),
numa cratera colossal me atiro,
pereço no fracasso da jornada.
Mas quando me transbordam plenos versos,
afugento momentos tão adversos
e aniquilo o torpor que me extermina.
Do purgatório saio acrisolado,
retorno ao meu perfeito e puro estado:
tecer sonetos é a minha sina.
Paulino Lima - Cadeira n°. 1
Patrono – Castro Alves
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DESTINOS...
Bailando aos quatro ventos, indeciso,
como se fosse a chama de uma vela,
enverga a vestimenta de aquarela,
voando em direção ao paraíso.
Na melodia, quase sem juízo,
o seu olhar se curva à caravela
que vê na lua um anjo sentinela,
regendo as andorinhas de improviso.
Em meio às tênues linhas rabiscadas
dos rastros demarcados nas calçadas
no limiar dos tempos de menino,
pressinto que jamais conseguirão
raspar as digitais da contramão
de tudo o que mapeia o meu destino.
Adilson Costa - Cadeira nº 21
Patrono - Euclides da Cunha






