quinta-feira, 23 de julho de 2026

FICA COMIGO

Fica, querida, sempre aqui comigo,
se te fores de mim, não sei se aguento,
és a porção maior do meu momento,
és o fermento deste velho trigo.

Se partires de mim, aquele vento
nunca mais vai soprar no nosso abrigo,
és tu o meu alento e eu não consigo
sequer pensar viver sem ti, lamento.

Por isso eu peço: fica um pouco mais,
eu não vou demorar, são muitos ais,
quem sabe até possamos juntos ir.

E assim, então, não vou deixar-te só,
voltaremos os dois ao mesmo pó
e subiremos ambos ao porvir.

Raymundo Salles 
Cad. 18 - Ineifran Varão

São muitos os meus momentos de reflexão,
e este soneto é fruto de um desses momentos.
Tenho medo de perdê-la, 
morro de pena de deixá-la só.

TATEANDO NO ESCURO

Perdi o meu passado, o riso e o pranto,
persiste o breu infindo em minha mente;
da infância não encontro o céu de encanto,
procuro as diversões eternamente...

Perdi o meu passado e sofro tanto!
Somente vejo o agora densamente;
rebusco, em cada foto, algum recanto
de outrora, encontro... e nele estou presente!

Desisto, colho as flores que eu alcanço,
aceito o que surgir em cada avanço,
sei que amanhã terei as mãos vazias...

Desisto, sempre foi assim, Senhor!
Prometo transformar, por onde for,
o que me fere em líricas poesias...

Janete Sales - Cadeira nº 5 
Patrono - Augusto dos Anjos

O soneto retrata a angústia 
de estender as mãos ao vazio, 
buscando algo que se sabe ter existido, 
mas que a memória 
já não consegue alcançar. 
Ao final, resta a resignação:
transformar toda essa dor em poesia.

À SOMBRA DO JUAZEIRO

Na sombra do juazeiro o sol descansa,
enquanto a minha infância reverbera...
O vento sopra e traz gentil lembrança
daquela vida cheia de quimera!

Comparo a lida árdua que me alcança
à vida revestida em primavera,
das travessuras livres na festança
que sobrevive ao tempo e não se altera.

Em nova fase vou seguindo adiante
com sonhos que plantei bem lá distante,
em busca dos sucessos que virão.

Pois trago a força viva da raiz
de tudo o que me fez e faz feliz,
forjada na labuta do Sertão.

Aila Brito - cadeira 32
Patrona  - Auta de Sousa

O poema contrapõe 
a leveza da infância sertaneja
à dureza da vida adulta, 
afirmando que é da raiz 
e do trabalho no Sertão 
que vem a força e a esperança
pelos sucessos almejados que virão.

FILIAÇÃO

 
Eu, filho de Jesus e de Maria,
reafirmo a graça que do Pai me vem,
que desce lá do Céu, que está além,
e em dádiva e louvor me propicia

o grande amor que vem da Eucaristia.
Porém Dos Anjos fala com desdém:
diz-se um filho da ciência, de ninguém,
quando a intenção expressa à revelia

da fé, por abraçar a treva imunda,
que logo o seu espírito fecunda,
o que elide a esperança que reluz.

Augusto, do carbono e do amoníaco;
eu, do Senhor, um místico elegíaco,
neste soneto que cintila Luz!

J. Udine Vasconcelos
Cadeira: 07 - Abrasso
Patrono: Mário Quintana 
 
 
INTERTEXTUALIDADE
 
Dialoga diretamente com o soneto 
"Psicologia de um Vencido", 
de Augusto dos Anjos:
"Eu, filho do carbono e do amoníaco..."
Concluo: não somos só matéria. 
Há filiação divina.
 É uma resposta poética e teológica.

BODAS DE AÇO DE SILVIA E KLINGER



O sim, que o filme traz, gravei na mente, 
com fino traço, vês que em mim habitas;
teu jeito manso faz-me bem contente,
nas bodas de aço brilham longas fitas. 

O abraço puro chega forte e quente,
em cada gesto, as falas tão benditas;
reunidas sempre encantam toda a gente,
a agenda traz segredos que hoje citas. 

Onze anos contam todo teu afeto, 
no olhar traduzes, força e enorme luz; 
radiante estou e nosso par, completo. 

O tempo prova o nosso amor antigo, 
sublime enlace, e o anúncio bom conduz. 
Eu te amo Klínger, sou feliz contigo.

Silvia Araújo Motta - Cad 9
Patrono Guilherme de Almeida


Em julho, quero oferecer
este soneto emoldurado ao
meu esposo Klinger,
porque em breve, estaremos
completando nossas Bodas de Aço,
com onze anos de casamento.

AS ROSAS, O BEIJA-FLOR E O POETA

 

As rosas, ao fluir o seu perfume,
com os olores como são nascidas,
de pronto o beija-flor, ao seu costume,
vem beijá-las em vezes repetidas.

Sua tarefa nisso se resume,
mas são todas as flores acolhidas,
para não provocar qualquer ciúme
por ter o beija-flor as preferidas.

Não há na natureza tal perigo
que só o ser humano traz consigo,
entre os maus-tratos tantos que colima.

Contudo, pelo amor que tenho às flores,
mesmo com outros nomes multicores,
professo pelas rosas terna estima.

José Walter Pires
cadeira 34, patrono Sá de Miranda

Uma inspiração repentina ao ver
um beija-flor no meu quintal.
A minha metáfora é a igualdade.

NINGUÉM É DONO DA VERDADE

Ninguém, em plena luz, assim aduz o dito:
que a tal verdade paira acima do respeito.
Qualquer pessoa crê em seu cabal direito
de ser feliz aqui; sentir-se um ser bendito.

Na livre escolha deve estar contido o jeito
cortês e pronto a ser até o mais contrito,
cumprir a meta em paz, seguir veraz o rito,
ali mostrar assenso a ser por outro aceito.

O agir de modo escuso ofende com seu ato,
renega o trato ameno, o gesto bom de fato
e expõe a sua mofa, ataca de antemão.

Certeza não assiste a quem se diz senhor
(o dono pleno, sumo e nunca perdedor),
porque a cada ser pertence o seu quinhão.

Basilina Pereira
Cadeira 33- Abrasso
Patrono: Jorge de Lima

Meu soneto remonta a uma expressão
que ouvi de um guia turístico na Irlanda, 
quando ele explicava sobre 
as diferenças religiosas que resultaram 
naqueles ataques do IRA. Ele disse: 
“ninguém possui toda a verdade, 
cada um tem parte dela.”