quarta-feira, 1 de abril de 2026

ABRASSO - Sonetos com Rimas Ricas - Tema Livre


 


Atividade Academia Brasileira de Sonetistas Abrasso® :
um soneto sáfico, heroico, alexandrino ou dodecassílabo.
Tema livre - Rimas ricas



Atividade ABRASSO:


um soneto sáfico, heroico,

alexandrino ou dodecassílabo.


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AMOR À VIDA

Eu já pressinto o fim chegar-me à porta,
o fim que cabe a todo ser vivente;
contudo não me aflijo, o que me importa,
se até aqui me sinto assaz contente?

Direita a vida, outrora um pouco torta,
caráter bom, forjado em ferro quente
que o toque da bigorna amassa e corta
e as mãos de Deus que me fizeram gente.

De um Deus clemente que me deu de tudo
o que me basta para ser feliz.
O fim, portanto, não será sanhudo.

Não digo que me apraz o tal momento
que já o vejo à beira por um triz.
Vivo a pedir a Deus que o torne lento.

Raymundo Salles
Cad. 18 - Ineifran Varão



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O AMOR EM TUA BOCA

De dentro da alma esplende um sol nascente,
sou risos, sonhos, glórias, formosuras,
quando, no abrir do dia, às horas puras,
falas de amor, audaz e ardentemente!

E não percebo as farpas do presente
e nem, do outrora, as muitas desventuras,
mas quando, nas manhãs, de amor murmuras,
sou gozo pleno e sou desejo urgente.

Apaixonada trago-te nas mãos
minha loucura, todo meu delírio,
o meu destino e os meus caminhos vãos.

Chamas-me, então, com gosto, pelo nome;
em tua boca rubra feito um lírio,
sacio a minha sede e a minha fome!

Geisa Alves
- Cadeira n° 23
Patrono - Artur Azevedo



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A GUERRA

Um céu rasgado a mísseis sem vitória
que valha pelos vales deste inferno...
A terra aquece, o mundo esfria... A inglória
incompetência em ser um ser mais terno...

Desperta pelos caças, a memória
sem nome dos defuntos deste averno,
nesta existência inúmera e expiatória,
se cala ao som do alarme sempiterno...

Desobras, descalabros do desmando...
Petróleo de ancestrais queimando em fonte...
Carbono pelos ares assomando...

Que mais dizer de um tempo que não conte
além do que dizima desde quando
da história fez a guerra um Aqueronte!

Marcelo Diniz - Cadeira 17
Patrono Vinicius de Moraes



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MÓRBIDO SONETO

Não temo a morte, só a solidão,
longe da convivência de rotina
que chega de uma forma repentina,
tornando a minha vida um rito vão.

Não prezo a vida nessa condição,
segundo dizem ser a minha sina,
porém sem pretendê-la peregrina,
pedindo ajuda e tendo sempre um não.

Quero ter companhias ao meu lado,
mesmo para zombarem do meu fado
quando tiver a mente fugidia.

Melhor assim que só, no isolamento,
abandonado, triste, sonolento,
sem saber o que tenha sido um dia.

José Walter Pires - Cadeira 34

Patrono Sá de Miranda



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ALIANÇA DE SILVIA E KLINGER

O anel que está no dedo esquerdo traz conceito
do par de amor fiel que pulsa e o peito sela;
esteve em minha mão direita e à outra aceito
usar por prêmio a joia antiga e o brilho dela.

Ninguém podia crer que um dia, por direito,
iria então casar de novo e ter parcela
cheia de pejo, e enfim sentir um grande efeito,
do ser bem simples, que ama a vida e a torna bela.

O amor que tenho em casa, eu sinto ter bom cheiro,
após o banho, toda a tarde espero o abraço
que oferta o aroma bom e espalma o corpo inteiro.

Dez anos pedem todo o tempo: venha amar!
A história viva amplia o dom vital que enlaço:
eu rogo a Deus, que a paz esteja neste lar.

Silvia Araújo Motta - Cadeira 09

Patrono Guilherme de Almeida



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RELÓGIO DE AREIA

A morte escreve o fim, mas é fadário inato.
Um dia, quando soa a última trombeta,
trazendo como emblema a horrenda capa preta,
as Parcas vêm cobrar o implícito contrato:

o nosso tempo escasso acaba-se, de fato.
E quando a morte vem, com fama de ranheta,
somente cumpre a lei forçosa da ampulheta,
o autêntico verdugo, embora caricato,

a areia, com certeza, um dia se esvairá.
Não cabe a mim julgar a morte boa ou má,
apenas aceitar o ocaso sem retorno,

a sorte singular que iguala toda a gente,
sem distinção de rico ou pobre; ateu ou crente.
Ninguém corrompe o algoz; sem chance de suborno.

J. Erato - Cadeira 25

Patrono Vicente de Carvalho



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REGISTROS

Quisera reescrever o tempo agora,
com versos comedidos, mas reais,
a fim de registrar lembranças tais
que ficaram gravadas, muito embora.

Talvez o meu soneto seja mais
propício a outros temas, sim senhora,
mas quero registrar também, por hora,
o que vivemos juntos, como iguais:

manhãs de puro amor, contentamento,
promessas tão repletas de certeza,
possíveis... bem possíveis, nesse instante.

Mas tudo passa, mesmo em passo lento,
pois os amantes sabem que alma presa
resiste pouco, não é um diamante.

Basilina Pereira - Cadeira: 33
Patrono: Jorge de Lima


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BUSCA

Tendo a saudade por estrela guia,
nos véus do tempo, busco por teu rosto
que tanto amei outrora e, por suposto,
sempre amarei sem tréguas e à porfia.

Prossigo a procurar-te na poesia
que habita os vãos do sonho e, a contragosto,
eu não te encontro e, para o meu desgosto,
essa tristeza aumenta dia a dia.

Quisera, sim, matar o meu desejo
de reencontrar-te, há tempos não te vejo
e andejo assim perdida a procurar-te.

Maldito amor! Tornou-me um trapo humano
-- a imagem mais atroz do desengano --
que fez da minha vida um mundo à parte.

Edir Pina de Barros- Cadeira n. 6

Patrono Cecilia Meireles



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A MENTE


Há coisas que se passam e eu esqueço,
mas outras têm efeito deletério
e podem me levar ao cemitério
se eu não lhes destinar um endereço.

Origem e morada do mistério,
a mente não tem fim e nem começo.
Sonetos que me surgem, não mereço,
são joias que não levo tão a sério.

Desejos tão profundos, tão insanos,
que se misturam aos divinos sonhos,
talvez me distanciem desses planos.

Há versos não aceitos nos saraus
e gestos que são tidos por medonhos...
Quem sabe se são bons ou se são maus?

Luciano Dídimo - Cadeira nº 2
Patrono - Horácio Dídimo



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ENGENHARIA

Qual máquina secreta move a vida,
com giros de engrenagem invisível?
E qual o verdadeiro combustível
que torna a vida curta bem cumprida?

O tempo imprime a mola corroída,
lubrifica a memória perecível;
e o sonho torna físico o impossível
para abrandar a essência desta lida.

Mas range a base antiga da esperança,
e a fé então vacila na tardança
quando o desgaste chega à engenharia.

Quem sabe exista, além da sala fria,
um Mestre, que no fogo da oficina,
seu nome à criação então assina.

Márcio Adriano Moraes
Cadeira nº 14
Patrona - Florbela Espanca



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CORRESPONDÊNCIA

Enquanto em seu harém celeste a noite escura
se abraça à tênue luz da lua em quarto plano,
redobra o amor nascido em teu cantar cigano,
pois tem ciúme o tempo e à vida cobra usura.

Caso uma sombra atroz nos faça a vida dura
e o tempo queira impor o peso desse dano,
por certo o amor será contrário ao gesto insano
e a vida vai florir buquês de mais ternura.

Que sejas tão sonoro, assim enquanto rimas,
nos beijos dados quando estás comigo e animas
o meu viver que ao teu, em paz, mantém-se unido.

E qual Vinícius diz em verso à vil quimera:
“de tudo ao meu amor serei atento”, espera,
de mim, o mesmo amor a ser por ti nutrido.

Carlos Alberto Cavalcanti

Cadeira 27 – Antero de Quental



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SEGREDOS

Conquista, Leonardo, a fama pelo mundo
com sua reverência em magistral pintura:
o busto de mulher, de traço assaz profundo
e porte encantador, moldado em arte pura.

A Diva Mona Lisa em seu olhar facundo,
parece acompanhar a todos da moldura
e ri, furtivamente, olhando todo mundo,
num riso juvenil, com a feição madura.

A tímida expressão traduz vivaz benesse,
e pelo mundo afora a eterna Musa tece,
no riso, um arabesco, indício sedutor.

O oculto vem à tona em espiral prazer,
mas nada formaliza ou vem a esclarecer,
seria Mona Lisa amante do pintor?

Aila Brito
- Cadeira nº 32
Patrona - Auta de Souza



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DONA DO MEU SER

Esta saudade imensa não termina,
eternamente bate em minha porta;
com êxito ressurge até na esquina,
então soluço... e ela não se importa.

Esta saudade nunca se comporta,
pois quer enlouquecer a minha sina,
somente me oferece a cena morta
de outrora e, assim, a mágoa predomina.

Esta saudade — dona do meu ser —
tem traços de loucura e, avidamente,
regressa noite e dia sem ceder...

Esta saudade abriu a cicatriz
e faz prevalecer, em minha mente,
o amor que pereceu e eu sempre quis.

Janete Sales - Cadeira nº 5
Patrono - Augusto dos Anjos



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O LAMPADEIRO NA ESQUINA

O velho lampadeiro lá na esquina,
com fraca luz, e fiel ao seu dever,
vigia a rua calma, pequenina,
enquanto tudo busca escurecer.

Seu facho antigo paira em névoa fina,
um ponto quente no vazio, a arder.
Presença muda, quase que em surdina,
afasta sombra, vulto, malquerer.

Na solidão, a chama tremeluz,
com histórias de alguém que se perdeu,
com o vento que nada mais conduz.

O tempo vai seguindo o rumo seu.
Mas ele insiste, firme sob a cruz
do poste singular que o céu lhe deu.

Paulo Maurício G Silva
Cadeira nº 3
Patrono - Alphonsus Guimarães



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CONTRIÇÃO TARDIA

No banco da pracinha, está sentado
um homem sem sorriso, cujo olhar
reflete as cicatrizes do passado
que o tempo desistiu de amenizar.

O coração contrito está banhado
por pranto extemporâneo, que ao jorrar,
repete sem cansaço: — O seu pecado
foi ter abandonado o próprio lar.

Por causa de uma jovem, bela e astuta,
perdeu o bem que tinha e agora luta,
tentando convencer-se de que é forte.

E na batalha insana e degradante,
um anjo surge e diz, no mesmo instante:
— Para curá-lo eu vim! Eu sou a morte!

Maurício Cavalheiro
– Cadeira nº 19
Patrono – Machado de Assis

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