segunda-feira, 3 de novembro de 2025

TEMA TEMPO - ATIVIDADE ABRASSO

 


CRISTAIS

Resvalo nos cristais da noite que sepulta
o riso da manhã e os lábaros do dia.
Num átimo febril a minha dor espia
a aragem do porvir e a sua fé oculta.

Quisera interromper o ciclo que faculta
à aurora esvanecer na tarde de asa fria.
O tempo, em seu furor, a tudo silencia,
e jaz na imensidão a azáfama insepulta...

Resvalo nos cristais, nas dobras temporais,
por entre lua e sol, colheita, seca e fome,
na imensa exatidão que o tempo dilacera.

Enquanto resta luz, resvalo nos cristais.
No jogo especular que aos poucos me consome,
eu sou argila e pó, semente, morte, espera...

Geisa Alves 

Cadeira n.23  - Artur Azevedo

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NO TEMPO DAS SERENATAS

Lembrando fico, às vezes, do passado,
de coisas que se não cogitam mais,
de coisas boas, que esse tempo, alado,
levou de mim e nem deixou sinais.

Isso é saudade? – Sim, não é pecado,
são lembranças que saltam dos anais
de minha história, quando fui moldado,
memórias de meus anos joviais.

Ouviam-se cantar canções tão belas!
Violões choravam de paixão nas ruas,
e moças suspiravam, todas elas.

A lua muito linda, cor de prata,
molhava de sereno as cordas nuas
de um violão choroso em serenata.

Raymundo Salles 
Cadeira 18 - Ineifran Varão


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REFLEXÕES SOBRE O TEMPO

O tempo é rio que cumpre o seu afã, destino,
reflui e flui, e vence o vale mais estreito,
rasga o caminho e segue adiante, sempre, a eito,
nutrindo a terra-mãe, o dom maior, divino.

Assim prossegue, além, viajante peregrino,
nos pantanais se perde e, então se vai, refeito,
até morrer no mar, o derradeiro leito,
onde se esvai, enfim, no beijo tão salino.

Mas não se finda nunca o manancial, por certo, 
há fontes a montante e oásis no deserto,
eterno vir a ser, que a tudo nos convida.

E tudo se refaz nas águas da lembrança,
o importante é amar, enquanto o tempo avança,
ser rio e mar... e ser, também, nutriz da vida.

Edir Pina de Barros
Cadeira n. 6 – Cecília Meireles

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PARADOXO DO TEMPO

Do tempo muitos dizem isso e aquilo:
uns o julgam castigo, outros, promessa;
mas como, enfim, podemos defini-lo?
Conceito abstrato ou algo que se meça?

O tempo é lento para quem se apressa,
mas ai de quem se excede num cochilo!
Constata que o ponteiro andou depressa…
é basilar gastá-lo com estilo.

Instrumental criativo ou deletério?
Um rio que flui cercado de mistério,
constante feito o vento, o sol, a lua…

companheiro e verdugo na jornada.
Dizemos que ele passa… passa nada!
A gente expira, o tempo continua…

José Erato  

Cadeira 25  - Vicente de Carvalho

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PROMESSA IMANENTE

O tempo pertinaz dos passos da formiga
na tarefa ancestral da pequena labuta;
o tempo da minhoca em faina sem fadiga
a compostar no solo os restos que desfruta;

o tempo de uma lesma espalmando a barriga
na aspereza da rocha, arrastando a voluta;
e o tempo de uma rocha exposta ao que a mitiga,
milênios ruminando a tal matéria bruta;
    
o tempo do planeta ao redor do regente,
orbitando a espiral da ciranda na dança,
o tempo em que se esfria o sol tão solitário;

o tempo de um piscar e, repentinamente,
a primavera murcha e, do pólen, se lança
a promessa imanente em qualquer calendário.

Marcelo Diniz
Acadêmico Honorário

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AINDA TENHO TEMPO

Ainda tenho tempo, nunca esfria 
o viço de transpor o curso estreito;
as horas não irão ceifar meu dia,
a todo instante a escuridão rejeito.

Ainda tenho tempo, não aceito
qualquer olhar, repleto de apatia,
a sobrepor somente o meu defeito,
pois abandona o bem e o mal amplia.

Mesmo de mãos atadas, me refaço,
consigo achar recurso no fracasso 
 e esmago com meu pé qualquer serpente...

Cada segundo enlaço intensamente,
ainda tenho tempo, vou vencer...
sinto a vitória dentro do meu ser!

Janete Sales 

Cadeira nº 5  - Augusto dos Anjos

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AO TEMPO

És de uma inexistência clara e inglória,
pois a substância nunca tens inteira.
O passado se foi, virou poeira
e em pouco já deixou de ser memória.

O presente em instante vira história,
não permanece por qualquer maneira.
E o futuro, existência derradeira
é só por vir, visão sempre ilusória.

Isso afirma a melhor filosofia.
Nos sentidos a mente fantasia
crendo que existes -  pensamento louco.

Porém, minha saúde e o meu vigor
todos os dias teimam em depor
que existes, e que os levas pouco a pouco.

Filipe Cavalcante
Cadeira n° 36 -  Ariano Suassuna

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NO TEMPO CERTO

Colher as rosas no seu tempo certo
é preservar o seu frescor floral,
cada momento tem um só portal
que evidencia o que não quer por perto.

Nada dispersa o seu soar igual
ao chamamento da razão, decerto,
sempre que a hora no seu tom experto
avoca para si zunir final.

Dizer agora que o minuto conta
parece óbvio, mas é bom lembrar
que cada instante só possui a vez;

por isso mesmo ter bem presa a ponta
do calendário nos garante o ar
que respiramos sem qualquer talvez.

Basilina Pereira 

Cadeira nº 33 - Jorge de Lima

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O TEMPO

O tempo, em correnteza, feito um rio,
passa apressadamente e nos carrega...
transforma nossas vidas, numa entrega,
de experiências entre o sol e o frio.

O tempo, qual um barco em mar bravio,
singra à deriva, numa rota cega...
porém, o aprendizado, nos entrega,
para aplacar as dores e o vazio.

O tempo, sábio mestre, nos ensina:
que seja pelo rio ou pelo mar...
o timoneiro deve navegar

em direção ao norte... e na rotina,
seja por águas claras, turvas... há de
seguir com fé, na paz, e na humildade.

Aila Brito

cadeira 32 - Auta de Souza

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O TEMPO, O CANALHA

O tempo passa e passa ferozmente,
e enquanto vai passando, atroz, gargalha.
É qual um gume afiado de navalha
que marca o nosso corpo e nossa mente.

O tempo passa e passa loucamente,
qual um corcel indômito, e esmigalha
o nosso frágil ser, porque é canalha,
indiferente às frustrações da gente.

O tempo modifica os nossos planos,
deixa-nos fracos, tristes... desumanos,
quando nos cobre em cinzas  outonais.

O homem, coitado, perde o laço forte,
ao pressentir, na vida, abrupto corte...
e chora o seu adeus aos madrigais!

J. Udine 

Cadeira 07 -  Mário Quintana

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CAPRICHOS DO TEMPO

O tempo vai passando sem alarde,
em todo o seu transcurso impiedoso,
ao mostrar-se com ares de tinhoso
e sem que nada  ocorra de retarde. 

Por isso, nunca passa cedo ou tarde,
e o seu desfrute, sempre precioso, 
que seja usufruído em pleno gozo,
enquanto a vida ainda insiste e arde.

Nada existe que possa transmudá-lo!
Insensível, transcende sem abalo
capaz de transformá-lo em usufruto.

Assim, não vale a pena atormentar-se
e padecer em face da catarse,
pois o tempo é, deveras, absoluto.

José Walter Pires
Cadeira n° 34 - Sá de Miranda

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TEMPO DE AMOR À TARDE

Meu coração em tuas mãos deponho
para sentir no peito aqui defronte 
ao esperado corpo deste sonho, 
a pulsação da artéria em pura fonte. 

Para este encontro oculto vens risonho;
mas a ninguém, te peço, nada conte;  
se chegas tarde, a culpa não te ponho. 
Só sei dizer que beijos tenho um monte. 

Horas passadas pedem bom repouso. 
Por timidez, revelo ter o pejo. 
Pedir-te um tempo, além do plano, eu ouso.

Bem abraçados, sinto o teu pulsar;
cabeça ao colo, sabes que eu desejo.
Precisas ir, entende se eu chorar. 

Silvia Araújo Motta
Cadeira 8 - Guilherme de Almeida.

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IMPONDERÁVEL TEMPO

Tenho o tempo no pulso e as horas lhe consulto
ao passo que a peleja enfrento na labuta
que transforma a energia ativa em força bruta,
pois do tempo me falta o pulso por indulto.

Clepsidra ou ampulheta, o tempo se faz vulto
que reduz a existência à fração diminuta
na qual me delimita os riscos dessa luta
até que eu volte ao pó no chão de onde resulto.

Igual ao girassol que espera a nova aurora,
que eu seja mais capaz da aspiração que aflora
ao desejar o sol que cedo reinicia

o amanhecer que traz, da noite, o novo dia
no brilho que clareia a terra, os céus e o mar,
enquanto canto: “Deixe a vida me levar...”

Carlos Alberto Cavalcanti
Cadeira 27 – Antero de Quental

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É TEMPO

É tempo de floradas nas campinas,
nos bosques, nos pomares... Que fartura!
E os vales se revestem de verdura,
régias renovações primaverinas.

É tempo do cantar das sururinas,
arautas deste instante de ventura,
a proclamar o término da agrura
da seca sob as águas setembrinas.

É tempo de sorver em plenitude 
as dádivas ditosas do momento
e poder desfrutá-las a contento.

É tempo de buscar a completude
do ser e não viver em contratempo,
mas de alma plena neste novo tempo.

Paulino Lima

Cadeira n.° 1 - Castro Alves

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Academia Brasileira de Sonetistas - Abrasso®

Atividade do mês de outubro:

soneto sáfico,  decassílabo heroico,

alexandrino ou dodecassílabo.

Tema Tempo

Rimas Ricas

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