sexta-feira, 31 de julho de 2026

SANGUE NEGRO

 


Quase em ruínas, vejo o casarão
rebobinando o tempo em que desenho,
em minha mente, aquele velho engenho
onde a saudade fica de plantão.

De longe, ouvia os brados do barão
que não cessava de franzir o cenho...
Resgato tudo, quando aqui eu venho,
jogando o tempo para a contramão.
 
Ainda escuto a voz que não se cala
dos ultrajados negros da senzala,
ao lado da capela surda e omissa.

Ainda agora, repetindo, eu vejo
o idoso padre, ao banzo do cortejo,
que sangue negro não merece missa.

Adilson Costa - Cadeira nº 21
Patrono - Euclides da Cunha

Descrição do Engenho Redenção,
no município de minha moradia
( São Lourenço da Mata -Pernambuco, )
desde os 04 anos de idade, em 1972.
O velho casarão, quase em ruínas,
ainda invoca as reminiscências
dos tempos de meus avós,
de um Brasil ainda império
e de um sistema escravagista.

A ESPERA AO ANOITECER


“Em que pensa Carlota após a valsa?”
– Castro Alves –

Ela medita cheia de incerteza,
à janela com flores em guirlanda…
Vem o sopro da tarde azul–turquesa
e um perfume levíssimo ciranda.

O que pensa, o que sente, junto à mesa,
com a lâmpada a arder suave, branda…?
Uma lágrima vem-lhe aos olhos presa...
Caem flores nas sombras da varanda,

quando murmura o entardecer vazio,
e a guirlanda balança-se, estremece…
Vão nuvens... vem um toque... um arrepio...

depois o pensamento, feito prece.
O que medita o seu olhar sem brio,
agora quando o pranto resplandece?

Paulo Maurício G Silva - Cadeira 03 
Patrono: Alphonsus De Guimarães 

(O presente soneto se trata 
de uma interação poética 
com o “Remorsos” de Castro Alves.)

sábado, 25 de julho de 2026

SECULAR E SANTO

A busca contumaz do estado etéreo
a todo instante, em toda conjuntura,
leva à obsessão aquele que procura;
nem tudo ostenta auras de mistério.

Não julgo quem o dom divino augura,
o ponto está no anelo sem critério;
não caio nesse empenho deletério
composto de desvelo… e de loucura.

Prefiro ver o santo na rotina,
a natureza tem feição divina…
o homem transverte o angélico em profano.

A lei das ruas tem seus predicados
e os púlpitos nem sempre são sagrados…
santificado seja o cotidiano!

J. Erato - Cadeira 25
Patrono Vicente de Carvalho

O jargão religioso “está no mundo”
costuma me causar estranheza (e incômodo)
porque sugere que a vida “secular”
(toda ela) está fora de Deus
e que a virtude é propriedade
exclusiva da igreja
(entenda-se igreja denominacional)
e de seus seguidores.
Acho mais coerente crer que Deus
está presente nas coisas naturais
que ficar buscando o sobrenatural
em todos os acontecimentos.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

FICA COMIGO

Fica, querida, sempre aqui comigo,
se te fores de mim, não sei se aguento,
és a porção maior do meu momento,
és o fermento deste velho trigo.

Se partires de mim, aquele vento
nunca mais vai soprar no nosso abrigo,
és tu o meu alento e eu não consigo
sequer pensar viver sem ti, lamento.

Por isso eu peço: fica um pouco mais,
eu não vou demorar, são muitos ais,
quem sabe até possamos juntos ir.

E assim, então, não vou deixar-te só,
voltaremos os dois ao mesmo pó
e subiremos ambos ao porvir.

Raymundo Salles 
Cad. 18 - Ineifran Varão

São muitos os meus momentos de reflexão,
e este soneto é fruto de um desses momentos.
Tenho medo de perdê-la, 
morro de pena de deixá-la só.

TATEANDO NO ESCURO

Perdi o meu passado, o riso e o pranto,
persiste o breu infindo em minha mente;
da infância não encontro o céu de encanto,
procuro as diversões eternamente...

Perdi o meu passado e sofro tanto!
Somente vejo o agora densamente;
rebusco, em cada foto, algum recanto
de outrora, encontro... e nele estou presente!

Desisto, colho as flores que eu alcanço,
aceito o que surgir em cada avanço,
sei que amanhã terei as mãos vazias...

Desisto, sempre foi assim, Senhor!
Prometo transformar, por onde for,
o que me fere em líricas poesias...

Janete Sales - Cadeira nº 5 
Patrono - Augusto dos Anjos

O soneto retrata a angústia 
de estender as mãos ao vazio, 
buscando algo que se sabe ter existido, 
mas que a memória 
já não consegue alcançar. 
Ao final, resta a resignação:
transformar toda essa dor em poesia.

À SOMBRA DO JUAZEIRO

Na sombra do juazeiro o sol descansa,
enquanto a minha infância reverbera...
O vento sopra e traz gentil lembrança
daquela vida cheia de quimera!

Comparo a lida árdua que me alcança
à vida revestida em primavera,
das travessuras livres na festança
que sobrevive ao tempo e não se altera.

Em nova fase vou seguindo adiante
com sonhos que plantei bem lá distante,
em busca dos sucessos que virão.

Pois trago a força viva da raiz
de tudo o que me fez e faz feliz,
forjada na labuta do Sertão.

Aila Brito - cadeira 32
Patrona  - Auta de Sousa

O poema contrapõe 
a leveza da infância sertaneja
à dureza da vida adulta, 
afirmando que é da raiz 
e do trabalho no Sertão 
que vem a força e a esperança
pelos sucessos almejados que virão.

FILIAÇÃO

 
Eu, filho de Jesus e de Maria,
reafirmo a graça que do Pai me vem,
que desce lá do Céu, que está além,
e em dádiva e louvor me propicia

o grande amor que vem da Eucaristia.
Porém Dos Anjos fala com desdém:
diz-se um filho da ciência, de ninguém,
quando a intenção expressa à revelia

da fé, por abraçar a treva imunda,
que logo o seu espírito fecunda,
o que elide a esperança que reluz.

Augusto, do carbono e do amoníaco;
eu, do Senhor, um místico elegíaco,
neste soneto que cintila Luz!

J. Udine Vasconcelos
Cadeira: 07 - Abrasso
Patrono: Mário Quintana 
 
 
INTERTEXTUALIDADE
 
Dialoga diretamente com o soneto 
"Psicologia de um Vencido", 
de Augusto dos Anjos:
"Eu, filho do carbono e do amoníaco..."
Concluo: não somos só matéria. 
Há filiação divina.
 É uma resposta poética e teológica.

BODAS DE AÇO DE SILVIA E KLINGER



O sim, que o filme traz, gravei na mente, 
com fino traço, vês que em mim habitas;
teu jeito manso faz-me bem contente,
nas bodas de aço brilham longas fitas. 

O abraço puro chega forte e quente,
em cada gesto, as falas tão benditas;
reunidas sempre encantam toda a gente,
a agenda traz segredos que hoje citas. 

Onze anos contam todo teu afeto, 
no olhar traduzes, força e enorme luz; 
radiante estou e nosso par, completo. 

O tempo prova o nosso amor antigo, 
sublime enlace, e o anúncio bom conduz. 
Eu te amo Klínger, sou feliz contigo.

Silvia Araújo Motta - Cad 9
Patrono Guilherme de Almeida


Em julho, quero oferecer
este soneto emoldurado ao
meu esposo Klinger,
porque em breve, estaremos
completando nossas Bodas de Aço,
com onze anos de casamento.

AS ROSAS, O BEIJA-FLOR E O POETA

 

As rosas, ao fluir o seu perfume,
com os olores como são nascidas,
de pronto o beija-flor, ao seu costume,
vem beijá-las em vezes repetidas.

Sua tarefa nisso se resume,
mas são todas as flores acolhidas,
para não provocar qualquer ciúme
por ter o beija-flor as preferidas.

Não há na natureza tal perigo
que só o ser humano traz consigo,
entre os maus-tratos tantos que colima.

Contudo, pelo amor que tenho às flores,
mesmo com outros nomes multicores,
professo pelas rosas terna estima.

José Walter Pires
cadeira 34, patrono Sá de Miranda

Uma inspiração repentina ao ver
um beija-flor no meu quintal.
A minha metáfora é a igualdade.

NINGUÉM É DONO DA VERDADE

Ninguém, em plena luz, assim aduz o dito:
que a tal verdade paira acima do respeito.
Qualquer pessoa crê em seu cabal direito
de ser feliz aqui; sentir-se um ser bendito.

Na livre escolha deve estar contido o jeito
cortês e pronto a ser até o mais contrito,
cumprir a meta em paz, seguir veraz o rito,
ali mostrar assenso a ser por outro aceito.

O agir de modo escuso ofende com seu ato,
renega o trato ameno, o gesto bom de fato
e expõe a sua mofa, ataca de antemão.

Certeza não assiste a quem se diz senhor
(o dono pleno, sumo e nunca perdedor),
porque a cada ser pertence o seu quinhão.

Basilina Pereira
Cadeira 33- Abrasso
Patrono: Jorge de Lima

Meu soneto remonta a uma expressão
que ouvi de um guia turístico na Irlanda, 
quando ele explicava sobre 
as diferenças religiosas que resultaram 
naqueles ataques do IRA. Ele disse: 
“ninguém possui toda a verdade, 
cada um tem parte dela.”

GRÃO INFÉRTIL

 

A noite, em lágrimas e dor, semeia
um grão estéril no vapor do dia
e a flor que medra na manhã vazia,
fervendo o olhar, solidifica a veia.

Na funda névoa da infindável teia,
o sol se apaga; em aflição se esfria
o céu do riso, e sem qualquer poesia
a alma definha, o desprazer granjeia. 

Ao relembrar as alegrias de antes,
revive a morte e os invernais instantes,
enquanto a vida, sem amor, se turva.

O seu futuro que se esvai na curva
da relembrança ao desconsolo o arvora...
o seu passado lhe subtrai o agora...

Geisa Alves
Cadeira n.23 - Artur Azevedo 

O soneto retrata uma alma aprisionada 
nas lembranças que se transformam em morada, 
esterilizando o futuro.
Grão infértil" simboliza a incapacidade 
de fazer nascer um novo amor, 
nova esperança.

CÍCLICO PULSAR

 

A tarde morrerá no colo do horizonte
sem agonia, em paz, entregue ao seu fadário,
o cíclico pulsar, nem sempre bom, hilário,
prossegue sem cessar o seu caminho insonte.

A tarde morrerá sem que ninguém afronte
seu cósmico poder no espaço planetário,
para vestir, além, o denso véu, sudário,
e renascer, depois, nos braços de Caronte.

A tarde morrerá sem lástimas, delongas
no róseo céu fugaz das horas tristes, longas
nas fendas do existir, nas rendas cor carmim.

A morte traz no ventre a força da semente
da vida, o vir a ser, pretérito e presente:
o infindo reciclar, o renascer do fim.

Edir Pina de Barros
Cadeira n. 6 – Cecilia Meireles


A intenção do soneto foi refletir 
sobre a inexorabilidade 
dos ciclos, tendo por referência o fim da tarde, 
que cumpre o seu fadário serenamente. 
E que o fim é sempre um recomeço, 

a morte a outra face da vida.

sábado, 4 de julho de 2026

Academia Brasiliera de Sonetistas - Sonetos com Rimas Ricas

 

Nova atividade ABRASSO: 
um soneto sáfico,  heroico, 
alexandrino ou dodecassílabo.
Tema livre.
Rimas ricas.

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ASSIM É O AMOR

O amor nos pede sempre resistência,
ainda que ele chegue sem demora,
porque se o tempo corre, já devora
o que se mostra em modo de latência.

Sofrer, talvez, amplie sua essência,
qual minuto a zelar, cortês, da hora:
aquela que nem chega e vai embora
em busca de outros lapsos de vivência.

A cada passo, impõe-se novo alento,
na vida de quem sabe ser amante
e tem por meta, o riso e a alegria.


Buscar o elã na vida eu sempre tento,
pois sei que o tempo finda a todo instante
que vê fugir o sonho à luz do dia.

Basilina Pereira
Cadeira 33- Abrasso
Patrono: Jorge de Lima

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O PRECONCEITO

Muitas vezes, perdemos a esperança
quando o chicote estala em nossas costas
e todas as feridas são expostas...
A dor do preconceito nos alcança.

A carne retalhada em finas postas
há muito tempo aguarda por mudança,
porém o preconceito não descansa
e persiste nas regras ora impostas.

Muitos olhos jamais enxergarão:
partilha o mesmo sol e o mesmo chão
a humanidade tão contraditória.

A própria vida aos poucos nos traduz:
o peso que possui a nossa cruz 
é o mesmo que possui a nossa glória!

Luciano Dídimo - Cadeira nº 2 
Patrono - Horácio Dídimo

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ITALIANA

Italiana, bravíssima Italiana!
Guerreira nas batalhas foste outrora,
com cetro em luz reinaste soberana,
afável como os risos de uma aurora! 

Oásis foste, e a flor que nunca engana,
quando o perfume exala mundo afora,
memórias há do quanto foste humana, 
com teu diário aberto o peito chora.

De lágrimas teceste um manto em breu,
quando um purpúreo mundo escureceu,
o pranto prolongou-se, foi demais.

Porém calou-se a cruz, rasgaste o rio,
restando um céu cinzento e assaz vazio,
voltaste ao lar a unir-se aos ancestrais!

Marlene Reis Cadeira 26 
Patrono: Manuel Du Bocage

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RODA-VIVA

Enquanto gira a roda-viva, eu danço  
no giro louco e quase me desfaço.  
Busco alinhar no tempo o meu compasso,  
e no tropeço o arrimo do balanço.

No avanço do ponteiro, o corpo lasso  
entrega-se à exaustão, ao seu descanso. 
Recito um mantra e a sua essência alcanço:  
o novo dia traz um terno abraço.

No vórtice das horas me aprofundo,  
mergulho em seu estágio mais profundo
e fico a meditar, em paz, sem pressa.

A vida gira, e eu giro junto dela,  
pois quem aceita a dança mais singela,  
vive na roda o sonho que não cessa.

Aila Brito - cadeira 32
Patrona   - Auta de Sousa

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PETRARCA ABRAÇA A ABRASSO

Ao vate cuja escrita a musa dá um toque
que alinha o verso à estrofe em metro e bela rima,
por certo um brilho a mais virá, do espaço acima,
juntar em tempo ao texto o verso ao qual retoque.

Petrarca, em tese, armou a trama em farto estoque 
de rimas ricas, metro e som no belo clima
da Itália culta e palco em festa de obra-prima
que ao mestre e sábio vate um verso a mais provoque.

Medida Nova atrai o velho mundo em crise,
e o mundo adota o verso e dele faz reprise:
Camões e Sá, Bilac, Augusto... e mais estrelas...

Até que nasce a ABRASSO em tempos pós-modernos
e a Trupe esculpe o verso e o veste em belos ternos,
lições que até Petrarca afirma: “Vamos lê-las...”

Carlos Alberto Cavalcanti – cadeira 27 
Patrono Antero de Quental

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ABANDONO

Há um sussurro no ar e eleva-se a manhã
sobre os imensos ais dos pêndulos do outono.
Acordam, sob a luz, as horas que fraciono
entre a saudade atroz e a fantasia vã.

Há um sussurro no ar e o sol amplia o trono
sobre a gramínea e a flor, a rosa temporã.
Mas sobre o meu pesar, a aurora oculta o elã,
o inverno habita em mim... nos rastros de abandono.

Eu procurei o amor na solidão das brumas,
um beijo desejei por toda a noite infinda,
morri no sonho meu... imaginado e louco...

No entanto, tempo, à dor da ausência me acostumas,
o mal que me corrói também me acorda, ainda,
e eu vivo a vida, assim, morrendo pouco a pouco...

Geisa Alves  Cadeira n.23 
Patrono Artur Azevedo

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FÊNIX

Sou a daninha erva que se enflora
nas gretas dos rochedos, do cimento,
pois ruminei a dor, em desalento,
bebi o próprio pranto vida afora.

Tornei-me, assim, aquela que se arvora
em ressurgir nas frinchas do tormento...
Nos vãos das rochas, guardo e sedimento
as forças que detenho em mim agora.

Eu me encontrei, depois de tanta luta,
de mágoa em mágoa, de uma vida bruta,
a carregar no peito apenas pedra.

Se alguém me pisa, humilha ou mesmo esmaga,
renasço bem mais forte do que a praga
que surge e viça onde o nada medra.

Edir Pina de Barros Cadeira n. 6
Patrona Cecilia Meireles

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MALIGNA DEPRESSÃO

À MARIA HELENA minha irmã.

Por que te afliges tanto, minha irmã,
se não trazes, no corpo, um mal temido,
com teu viver ficando sem sentido
sem que possas sentir-te alegre e sã?

Auguro sempre o bem-estar provido,
para o gozo completo nesse afã,
por teres proteção da fé cristã
que por graça suprema tenhas tido.

Talvez por uma dor latente, abstrata,
(perdoe-me como penso sem visão)
mas que persiste, teima e te maltrata.

Depende só de ti, irmã querida,
sair do vil desgosto a depressão,
a causa que corrói a tua vida.
 
José Walter Pires
Cadeira 34, patrono Sá de Miranda

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PREFIRO SER ASSIM...

Não quero pouco, quero a eternidade,
dirão que sou um louco e até aceito,
porque talvez eu seja, na verdade,
guardo o futuro dentro do meu peito.

Em meu pensar persiste a liberdade,
serei eterno, mesmo com defeito,
essa certeza absurda não se evade,
travo a extinção, qualquer final rejeito.

Prefiro ser assim, jamais sensato,
e, sendo dessa forma, até constato
que ainda ostento o ânimo de outrora.

Prefiro ser assim, jamais restrito,
pavor eu nunca tive do infinito,
e essa reação restauro a toda hora...

Janete Sales - Cadeira nº 5 
Patrono - Augusto dos Anjos

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PESCADOR DE VERSOS

Percebo em vosso olhar deslumbramento
ao lerdes estes versos singulares,
em que exaltei a sedução dos mares
e o fausto deste cosmos opulento.

É o mar, e não o verso, o luculento
espaço de fascínios invulgares
que tento capturar em meus cantares,
ainda que me exceda o pensamento.

O mar que vem da gênese do mundo,
 e nosso olhar jamais decifrará,
de modo pleno, o código profundo.

O poema nada tem de insigne, crede!
Os versos estiveram sempre lá,
só esperando alguém lançar a rede.

J. Erato Cadeira 25 
Patrono Vicente de Carvalho

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SURGES

Surges, e a minha vida silencia
como se levitasse em um momento...
Não importa o cenário barulhento,
apenas esta simples nostalgia.

Tudo lembra secreta melodia:
as nuvens vagas, seu percurso lento,
as folhas arrastadas pelo vento,
o sol que minha tez acaricia…

Surges em meio a tudo que define
o meu viver metódico, incessante;
numa esquina, um reflexo de vitrine,

uma travessa, um trecho ou um bazar;
feito alguém que surgiu por um instante
e ao meu lado se pôs a caminhar...

Paulo Maurício G Silva  Cadeira 03
 Patrono Alphonsus De Guimarães

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A CASA

Retorno à antiga casa abandonada
que outrora deu guarida à minha infância.
Pisei no velho chão, com relutância, 
as pedras desbotadas da calçada.

Lá dentro, murmurava a ressonância 
dos ecos de uma efêmera jornada,
ciciando, em um rumor de voz velada, 
os sonhos sepultados na distância.

Um frêmito fugaz de calafrio 
apunhalou-me então ‐‐ um arrepio ‐‐
lançando-me às memórias do passado.

Junto aos fantasmas, quando estava ali,
na casa agonizante, eu entendi:
‐‐ ali jazia o tempo aprisionado!

Paulo Tórtora - cadeira n⁰ 20
Patrono Fagundes Varella

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LÁGRIMAS DA LUA

A lua, debruçada na janela,
ao me flagrar tão triste e soluçando,
pergunta em voz materna: — Desde quando
sumiu a sua paz por causa dela?

Por me fingir de surdo, a lua apela, 
impõe a autoridade e diz bradando: 
— Não quero que se integre àquele bando 
que faz do amor as grades de uma cela. 

Então eu bebo cálices de vinho,
gota por gota, bem devagarinho
até que, na garrafa, reste o nada. 

Ao ver que à minha dor não acho a cura,
compadecida, a lua em prantos jura
chorar comigo sempre sempre amargurada.

Maurício Cavalheiro Cadeira nº 19 
Patrono Machado de Assis

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MINHA SINA


Quando me faltam versos, eu expiro,
desço ao inferno lúgubre do nada,
inerte, ofego um último suspiro
no abismo da agonia desvairada. 

Quando versejo em branco no papiro
(lauda de inspiração desencontrada),
numa cratera colossal me atiro,
pereço no fracasso da jornada. 

Mas quando me transbordam plenos versos,
afugento momentos tão adversos
e aniquilo o torpor que me extermina.

Do purgatório saio acrisolado,
retorno ao meu perfeito e puro estado:
tecer sonetos é a minha sina.

Paulino Lima - Cadeira n°. 1 
Patrono – Castro Alves

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DESTINOS...

Bailando aos quatro ventos, indeciso,
como se fosse a chama de uma vela,
enverga a vestimenta de aquarela, 
voando em direção ao paraíso.

Na melodia, quase sem juízo,
o seu olhar se curva à caravela
que vê na lua um anjo sentinela,
regendo as andorinhas de improviso.

Em meio às tênues linhas rabiscadas
dos rastros demarcados nas calçadas
no limiar dos tempos de menino, 

pressinto que jamais conseguirão
raspar as digitais da contramão
de tudo o que mapeia o meu destino.

Adilson Costa - Cadeira nº 21 
Patrono - Euclides da Cunha
 
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